O tipo e a qualidade das conversações das pessoas podem predizer o sucesso de suas iniciativas de mudança

Adam Kahane em Como podemos resolver nossos problemas mais complexos?

Nos últimos quinze anos, tenho concentrado toda a minha atenção na resposta a uma pergunta: Como podemos resolver nossos problemas mais complexos de forma pacífica? Não é difícil tentarmos resolver nossos problemas de forma violenta, usando dinheiro, autoridade ou armas para fazermos com que as coisas fiquem da maneira que nós queremos. Também não é difícil sermos pacíficos; deixando, contudo, as coisas exatamente como estão. Como podemos, então, trabalhar conjuntamente para cocriar novas realidades sociais?

Tenho dado várias cabeçadas. Mas, se você se concentra em uma questão pelo tempo suficiente, uma resposta então começará a surgir na sua mente. Aqui está o início da resposta que surgiu para mim: se quisermos ser capazes de resolver nossos problemas mais complexos pacificamente, temos que melhorar a qualidade nas nossas conversações. Pois, o tipo e a qualidade das conversações das pessoas podem predizer o sucesso de suas iniciativas de mudança. Nas nossas conversas temos que nos tornar bilíngües. Temos que aprender a falar duas línguas que não são traduzíveis de uma para a outra. Temos que aprender a falar a língua do poder e a língua do amor.

Na definição de Tillich poder é “a força de tudo que vive para realizar a si próprio, com crescente intensidade e amplitude”. Portanto, poder, neste sentido, é a força de realizar um trabalho, de alcançar um propósito, de crescer. Passei a maior parte da minha carreira no mundo dos negócios, que é dominado por esta linguagem do poder: pela força ativa e empreendedora dos indivíduos e das organizações para terem seus trabalhos realizados, seus objetivos alcançados e crescerem.

Tillich define amor como “a força em direção à unidade do que está separado”. Portanto, amor, neste sentido, é a força de religar aquilo que é inteiro, que é único, mas que parece partido em fragmentos.

Até este momento, falei sobre poder e amor de forma neutra e direta. Mas naturalmente nossa situação não é de forma alguma neutra ou direta. Isto acontece porque ambos, poder e amor, têm duas faces: uma criadora e outra degenerativa e obscura. A feminista Paula Melchiori me chamou a atenção ao fato de que podemos ver claramente estes dois conjuntos de duas faces se observarmos os papéis tradicionais dos gêneros. O pai, que incorpora o poder masculino, sai ao mundo para realizar seu trabalho. A face criadora deste poder é a construção de algo de valor no mundo; a criação de uma história. A face degenerativa de seu poder é que ele pode ficar tão concentrado em seu trabalho, que esquece sua ligação com as outras pessoas e pode tornar-se um robô ou mesmo um tirano.

Por outro lado, a mãe, incorporando o amor feminino, fica em casa para criar os filhos, renunciando sua capacidade de criar história. A face criadora de seu amor é que ela literalmente dá sua vida ao filho. A face degenerativa de seu amor é que ela pode ficar tão concentrada em seu filho que bloqueia sua capacidade de crescer e realizar-se.

Portanto, precisamos ser bilíngues porque poder e amor são complementares.

Amor é o que torna o poder criador ao invés de degenerativo e poder é o que torna o amor criador ao invés de degenerativo.

Amor sem poder é sentimental e anêmico. Se reconheço nossa unicidade, mas não mudo minhas ações para estarem de acordo com este reconhecimento, então o resultado que produzirei será, na melhor das hipóteses, inútil e, na pior das hipóteses, um reforço inconsciente da situação atual.

Precisamos aprender a sermos bilíngues. Precisamos aprender a falar tanto a língua do amor como a língua do poder. Poder e amor não são a mesma coisa e nem opostos. Assim como nossa natureza masculina e feminina, ou nossos hemisférios esquerdo e direito, eles existem em áreas diferentes; um complementa o outro. Se pudermos nos tornar mais bilíngues, seremos então mais capazes de resolver nossos problemas mais complexos de forma pacífica.